O valioso mercado nerd

A massificação da cultura nerd fez o mercado econômico olhar para essa nova força que tomava conta das ruas. A evolução transformou esse grupo na figura principal dessa nova era que o mundo está vivendo.

Ser taxado de “nerd” ou “geek” deixou de ser algo ruim e passou a ser um padrão cultural que muita gente gostou de seguir. Seriados de TV como The Big Bang Theory, Silicon Valley e outros, transformaram o nerd em algo legal.

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BAZINGA! A série que já tem quase dez anos de duração e está na décima temporada

Ao caminhar pelas ruas, facilmente encontramos alguém com alguma camisa, chaveiro, mochila, blusa, boné, enfim. Tudo o que se vê nas telas ou nas páginas pode ser transformado em produto.

Tibério Velasques, 35 anos, analista de sistemas. Representante legítimo de um nerdold school”, que cresceu no auge cultural dos anos 80 e até hoje não deixou os costumes que fizeram parte de sua vida. Sempre lembro de ter um boneco ou chaveiro ou alguma coisa desde que era criança e meus pais podiam me dar. Mas virei colecionador “profissional” mesmo depois que consegui me estabilizar financeiramente, já bem adulto. Aí a coleção cresceu exponencialmente.”

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Tibério e sua vasta coleção de Action Figures

Assim como ele, vários outros jovens daquela época seguiram o mesmo caminho. Mas viviam em um mundo bem diferente do atual. É isso que César Lima, engenheiro, 42 anos, conta. “ […] havia os meninos que gostavam de jogar futebol e os que ficavam discutindo a extensão dos poderes do Galactus, e essas turmas raramente se intersectavam como acontece hoje.”

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César ostenta o orgulho de ter a estante recheada

O engenheiro, também cresceu nos anos 80, e foi pela televisão e pelas HQs, que teve os primeiros com essa cultura, e ganhou credenciais para se intitular “nerd de coração.” “No início dos anos 80, quando os quadrinhos e a TV eram praticamente as únicas portas de acesso ao mundo das aventuras, ficção e fantasia. Nessa época, lembro que marcaram bastante a exibição de seriados na TV aberta como O Incrível Hulk, Mulher-Maravilha, Batman, além das séries de ficção científica como Jornada nas Estrelas.”

Hoje, eles cresceram e consomem cada vez mais produtos, além de repassar esse amor para as novas gerações. Mas antes de entrar nesse assunto, é preciso esclarecer duas coisas. O que são nerds e geeks, e por qual motivo boa parte deles passou pelos anos 80.

Anos 80 – Choque de Cultura

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Nessa década, houve a explosão artística de uma geração completamente diferente das anteriores. Vivendo em um país marcado pela ditadura militar, foi preciso buscar na cultura pop, uma alternativa de novos pensamentos que passou diretamente pelo teatro, cinema, música e literatura.

Nas fitas dentro dos walkmans, a trilha era formada por Michael Jackson, Madonna, David Bowie, Lionel Ritchie, além do apogeu do rock nacional com  RPM, Legião Urbana, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Lulu Santos e outros.

Nos cinemas, lendas começaram a surgir. Curtindo a Vida Adoidado (1986); Clube dos Cinco (1985); E.T – O Extraterrestre (1982); De Volta Para o Futuro (1985); Os Caça-Fantasmas (1984); Indiana Jones – Os Caçadores da Arca Perdida (1981); Karatê Kid (1984); O Exterminador do Futuro (1984); Blade Runner (1982) ; Star Wars: O Império Contra-Ataca (1980); Star Wars: O Retorno do Jedi (1983) ; Rambo (1982), e diversos outros clássicos que perduram até hoje.

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George Lucas, Harrison Ford e Steven Spielberg: O trio dos anos 80

Se adicionarmos os vídeo games à essa lista (Pac-Man; Super Mario Bros; Tetris; The Legend of Zelda), não é de se espantar a quantidade de nerds e geeks que foram moldados.

E isso nos leva para a segundo ponto. As definições de cada um deles. E isso você pode ler aqui. 

Agora entramos em uma nova era:

Quem manda agora é o nerd!

Tibério Velasques, um “nerd das antigas”, comemora essa evolução. Hoje está tudo muito mais acessível. Todo mundo conhece o Homem de Ferro ou, pasmem, o Homem Formiga! São mais pessoas pra falar do assunto, interessadas, consumindo consequentemente mais quadrinhos nas lojas, mais bonecos, chaveiros. Cara, estamos em um ótimo momento.”

E um dos motivos para esse boom comercial, passa diretamente pela facilidade que a internet proporcionou. Uma pesquisa encomendada pelo portal Omelete (referência em cultura pop no Brasil), apontou que esse público passa cerca de 84 horas por mês na internet, enquanto a média do brasileiro é de 60 horas. Além disso, 7% dos entrevistados revelaram fazer compras pela internet frequentemente, 24% o fazem algumas vezes por ano e apenas 10% utilizam o e-commerce raramente.

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Ainda segundo o analista de sistemas, a facilidade de compra dos produtos, também levantou outra questão. Às vezes, o preço de um colecionável pode não ser tão em conta assim. Eles podem custar de R$ 100,00 a até R$ 2.800,00. Mas para ele, até que compensa. Normalmente a crítica vem relacionada ao custo que um colecionável possui. Todo mundo acha maneiríssimo, mas acaba criticando o valor pago. Não tem jeito, o fã de futebol vai pagar caro numa camisa de um time europeu e eu vou pagar caro um colecionável de um filme que sou fã. No fundo, todo mundo acha bacana… Talvez não minha esposa que tem que perder espaços da casa para ‘isso’

Para manter as paixões, às vezes é preciso conciliar o hobby com o trabalho formal. É o caso de Helvecio Parente (ou Helvis, como gosta de ser chamado). Na hora de falar a profissão, faz questão de se apresentar como: comerciante, músico, cineasta, crítico de cinema e podcaster. “Sempre acompanhei tudo o que passava no cinema. E eram menos filmes, então, lá pro meio dos anos 80, eu via TODOS os filmes. Além de cinema, vivi intensamente o rock nacional dos anos 80.”

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Não importa o momento, Helvis não abandona o estilo Jedi

Diferentemente do Tibério, que se intitula um “nerd”, o carioca de 46 anos, ressalta que nunca se considerou de fato um. “Acho que ainda não existia o termo ´nerd´. E nunca fui um nerd de verdade, afinal, nunca joguei rpg nem li quadrinhos de super heróis, e só fui ter computador em casa no fim dos anos 90. Sobre cultura cinematográfica, sempre li tudo o que tinha oportunidade. Lia as revistas Set, Fotogramas e Vídeo, Cinemin, e comprava guias de filmes do Rubens Ewald Filho.”

Helvis, já foi proprietário de video locadora. E nesse período, aumentou muito a coleção de filmes. O acervo foi crescendo tanto, que hoje, ele nem para contar. “É besteira contar, porque não é uma coleção finita – bons filmes continuam sendo feitos e sendo lançados. A coleção continua crescendo…”

Segundo ele, o seu emprego atual permite que ele tenha uma agenda flexível e consiga realizar seus hobbyes: ter uma banda, escrever críticas de cinema, dirigir curta-metragens e juntamente com o Tibério e mais um grupo de amigos, fazer parte dos Podcrastinadores (podcast voltado para livros, filmes e séries de TV).

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Os PodCrastinadores são especialistas em todo universo da cultura nerd. Basta acessar o site deles e colocar os fones de ouvido para embarcar nesse bate-papo

Mas se para ele é preciso conciliar as duas coisas, para o nosso próximo personagem, a história é bem diferente. Enquanto a apresentação do Helvis é extensa, a de Henrique Granado, é no mínimo curiosa. CEO e Jedi Master. O empresário de 38 anos, decidiu viver daquilo que amava.

A ideia de empreendimento, era pioneira no Brasil, mas levou um certo tempo até começar a atuar no mercado. “Em 2005 eu decidi que gostaria de dedicar minha carreira à cultura nerd e comecei um projeto de uma camiseteria que oferecesse produtos para este nicho. Naquela época, não existia no Brasil nenhuma marca que investisse nesse tipo de estampa com a qualidade que encontramos em outras marcas de peso. Infelizmente só pude colocar o projeto em prática em 2013, quando o mercado já havia enxergado essa oportunidade, então não naveguei no oceano azul que gostaria, mas certamente houve uma ótima receptividade do público, ainda assim.”

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Henrique Granado: O empreendedor pop

Um outro caminho trilhado por Granado, foi a organização de grandes eventos de cultura pop. Entretanto, o objetivo era que eles não ficassem somente para um público específico. Um deles, é a Jedicon. Hoje, considerado o maior evento de Star Wars do Brasil. “A Jedicon nasceu em 1999, período em que este tipo de evento ainda não era devidamente valorizado. Com o passar dos anos o evento foi ganhando credibilidade e respeito, o que me deixa sim, extremamente realizado. No caso específico da Jedicon, que é um evento não-comercial, sem fins lucrativos e totalmente feito por fãs, é uma realização ainda maior, por saber que não ficamos atrás de eventos onde há muito mais investimento.”

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Jedicon 2017, realizada no Rio de Janeiro entre os dias 8 e 9 de julho

Além da Jedicon, o Brasil começou a receber grandes eventos desse estilo no decorrer dos anos. O principal deles, foi a Comic Con Experience (CCXP). O tradicional e cultuado evento de cultura nerd, que é realizado todos os anos em San Diego, EUA, ganhou uma edição no país. Isso representou que definitivamente, esse mercado estava mais em alta do que nunca. Já foram quatro edições desde 2014. E a de 2016, foi considerada a terceira maior do mundo em público. Foram mais de 300 mil pessoas, somando todas as edições.

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A CCXP vem atraindo cada vez mais apaixonados pela cultura pop.

O evento chegou até o país pelo portal Omelete, que surgiu em 2000, tomou corpo e força, e hoje desponta como uma das principais referências da área. Pierre Mantovani, em entrevista para a revista VIP, contou o que representou essa conquista. “Pensei: Temos um evento dando dinheiro? Não. Vamos montar. Foi quando os sócios me levaram para conhecer a Comic Con de San Diego – e eu entendi a grandeza do evento […] A CCXP é a experiência máxima da cultura pop” afirmou o CEO do portal em entrevista para a revista. (Para ver a matéria completa, clique aqui

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Omelete, CCXP e sucesso: Pierre Mantovani

Futuro

Os dados comprovam, essa cultura já se enraizou, e talvez, demore para sair de moda. O que para todos os personagens envolvidos nisso, é algo excelente. Para eles, quanto mais pessoas nessa força, melhor.

Acho que sempre haverá a necessidade de que as pessoas possam se expressar de acordo com seus gostos e preferências. Por isso, acho ótimo que hoje haja tantas opções para o público nerd/geek. Usar uma camiseta que te representa, decorar sua casa com os itens que se identifica ou ter acesso a uma gama quase infinita de filmes e séries que agradam a esse gosto é certamente um sinal de que o nerd deixou de ser um pequeno nicho e passou a ser enxergado como consumidor.” Henrique Granado. Nerd, consumidor e empreendedor.

Pois então: Vida longa e próspera à cultura nerd!

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